Paquistão, a primeira vez… Vôo perdido!

KarachiFiasco Número 1: Vôo perdido, nada como um mau começo!

Minha viagem começou no dia 31 de janeiro, quando deixei o Brasil e passei um mês na terrinha da famiglia: a Itália. Uma viagem demasiadamente longa, ao ponto de me fazer enjoar de Milão, Roma e Florença – o que jamais imaginei ser possível. As férias terminaram em Paris, quando voltei a trabalhar. De lá segui para uma feira em Madrid e sairia de lá no dia 28 de janeiro pela manhã para Milão, onde embarcaria numa linda aeronave da Emirates para o destino que, por um bom tempo, foi apenas um sonho.

Mas tudo deu errado.

Sábado

Na manhã do dia 28 o aeroporto de Milão foi fechado devido ao mau tempo. Vôos foram cancelados e, logicamente, meu vôo Madrid – Milão foi cancelado. Pára tudo. Chorei, esperneei e não adiantou nada. Consegui um vôo apenas para as 17 horas. Cheguei em Milão às 19h e o vôo da Emirates, que sairia às 15h45, saiu no horário.

Como meu vôo para Milão era da Alitalia e meu vôo para Karachi via Dubai seria da Emirates, nenhuma companhia aérea poderia se responsabilizar pela minha perda.

Lição número 1: faça sempre conexões com a mesma companhia aérea. Em caso de imbróglio, a própria companhia se responsabilizará em te colocar no próximo vôo disponível.

Lição número 2: se não for possível conectar vôos com a mesma companhia, tire ao menos uma noite para ficar no destino de conexão. Um dia de diferença lhe dará uma margem de segurança de tempo caso o primeiro vôo atrase ou o segundo seja adiantado.

Para piorar um pouco mais a situação (e meu estado emocional), os escritórios da Emirates na Itália estavam fechados (ah, jura, alguém gosta de trabalhar por lá?) e não havia uma alma que pudesse me ajudar. Liguei no escritório principal em Dubai e meu medo foi confirmado: nenhum assento livre para Dubai até o dia 4 de fevereiro. Sem falar que não haveria nenhum vôo para Karachi ou Peshawar nos dias seguintes ao vôo disponível, o que me obrigaria a ficar por lá um dia sem reserva de hotel e, logicamente, sem visto. Enfim, um dominó. Tudo ruiu.

Liguei para o Ali, meu anfitrião no Paquistão, expliquei o rolo e por alguns segundos ele ficou calado. Só pediu para que ficasse calma, mas, naquela situação de incerteza total e sem nenhum hotel em Dubai ou Milão, meu lado emocional ultrapassou qualquer limite de racionalidade e me destruiu em lágrimas. O sonho parecia terminar antes mesmo de começar. Frustração é uma palavra muito leve para descrever o que sentia. Uma dor que só os viajantes apaixonados conhecem.

Estação Central, em Milão. Foto por Karina Buairide.

Estação Central, em Milão. Foto por Karina Buairide.

Em Milão, peguei minha malinha (ok, malinha é eufemismo) e fui para a estação central de trens. De lá, procurei um quarto no Hotel Madison, onde sempre fico. Graças a Deus, um teto familiar e simpático. Até quando, não sabia. Continuei tentando contatar algum funcionário da Emirates na Itália. Mas não havia ninguém. Foi uma noite de sábado bastante angustiante e terminou com uma caixinha de Godiva e um Veuve que comprei no Duty Free de Madrid – afinal, precisava levantar meu astral e não faria isso com qualquer espumante nem com qualquer Batom da Garoto local. Triste em Milão, mas triste com qualidade e salto alto, sempre.

Domingo

Acordei cedo e desorientada. Dor de cabeça e péssimo humor. Levei um tempo para lembrar o que tinha ocorrido, onde estava e que merda que é não ter idéia do porvir. Incerteza é o pior substantivo abstrato para uma pessoa ansiosa. Dia de encontrar a solução sem auxílio de nenhuma companhia aérea. O jeito seria pedir reembolso do ticket da Emirates e comprar o próximo vôo para qualquer cidade no Paquistão a partir de Milão. Enfim, a Turkish Airlines tinha um vôo para Karachi na segunda, às 11h. Comprei o bilhete e, na segunda, estaria linda e maquiada em Istambul.

Segunda

Cheguei cedo ao aeroporto. Comprei o bilhete e, pela primeira vez desde sábado, voltei a sentir meus músculos relaxarem. Também lembrei de sentir fome, porque tudo que havia ingerido eram os cafés da manhã do hotel, chocolate, champagne e uma salada mequetrefe do McDonalds.

comidinha de avião

Comidinha de avião. Da Turkish. Foto por Marco, para Airlinemeals.net.

Não sei descrever o que senti ao pisar no avião da Turkish. Boba e emotiva, deixei algumas lágrimas escaparem quando ouvi a música ambiente: música tradicional turca. Muito suave. E a trilha sonora das instruções de emergência era Brahms. Uma valsa que tocava no piano. Um momento que, se descrito, seria uma pieguice só. Mas, poxa vida, que tesão. O vôo foi excelente, a tripulação era simpatissíssima e a comida de bordo, italiana. Parfait.

Quase lá

Seis horas e meia de vôo até Karachi. Sentei na fileira da janela ao lado de dois senhores turcos divertidíssimos. Eles acharam que eu era turca (lógico, todo mundo acha, menos os paquistaneses que não distinguem um dinamarquês de um abacaxi) e puxaram papo. Continuamos a conversa em inglês e eles decidiram que, antes de permanecermos num país islâmico, deveríamos consumir um bocado de álcool pra compensar. Oras, e porque não? Nota: a Turquia é um estado laico. E foi o Mustapha Atatürk que acabou com o sultanato no país, wee hee!

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Foto do vinho turco. Por M. Ouchi para Airlinemeals.net. Não me pergunte o que é esse troço preto no copo, a foto não é minha.

No meio do vôo já estávamos cantando Frank Sinatra e rindo. Até o comandante ficou bravo conosco. Levamos uma baita bronca do comissário por incomodarmos os outros passageiros. Morri de vergonha. Mas passou logo e voltamos a rir, felizes e felizes. Até o italiano da fileira ao lado entrou na farra. É tudo chegar em Karachi trançando as pernas.

Karachi Night 

Vista aérea de Karachi. Esqueça luzinhas organizadas obedecendo um contorno. Esqueça os belos desenhos formados por milhares de lampadinhas como em Toronto, Milão e Tokyo. Bêibe, a moda em Karachi é salpicar. Foto do Metroblogging Karachi.

CHE-GAY!

Enfim, cheguei. Linda, ex-loira e alegre. Conheci uma ucraniana loiríssima na fila que estava no Paquistão porque o marido era de lá. Viu, sempre encontro alguma guria com ainda menos parafusos do que eu, oras!

Imigração.

Váááárias filas. Passaportes diplomáticos, passaportes comuns, passaportes paquistaneses. Lógico que ninguém obedecia nenhuma especificação e me enfiei numa fila qualquer com a loira. Já estava me preparando para o pior quando a oficial da imigração carimbou meu passaporte. Passei para outros oficiais que perguntaram o objetivo da minha viagem, se era muçulmana e como estava o tempo no Brasil, se eu gostava de futebol, se conhecia cricket e ainda recebi elogios referentes à minha aparência física.

Uhu!

Quase lá

Seis horas e meia de vôo até Karachi. Sentei na fileira da janela ao lado de dois senhores turcos divertidíssimos. Eles acharam que eu era turca (lógico, todo mundo acha, menos os paquistaneses que não distinguem um dinamarquês de um abacaxi) e puxaram papo. Continuamos a conversa em inglês e eles decidiram que, antes de permanecermos num país islâmico, deveríamos consumir um bocado de álcool pra compensar. Oras, e porque não?

Nota: a Turquia é um estado laico. E foi o Mustapha Atatürk que acabou com o sultanato no país, wee hee!

Foto do vinho turco. Por M. Ouchi para Airlinemeals.net. Não me pergunte o que é esse troço preto no copo, a foto não é minha.

No meio do vôo já estávamos cantando Frank Sinatra e rindo. Até o comandante ficou bravo conosco. Levamos uma baita bronca do comissário por incomodarmos os outros passageiros. Morri de vergonha. Mas passou logo e voltamos a rir, felizes e felizes. Até o italiano da fileira ao lado entrou na farra. É tudo chegar em Karachi trançando as pernas.

Vista aérea de Karachi. Esqueça luzinhas organizadas obedecendo um contorno. Esqueça os belos desenhos formados por milhares de lampadinhas como em Toronto, Milão e Tokyo. Bêibe, a moda em Karachi é salpicar. Foto do Metroblogging Karachi.

CHE-GAY!

Enfim, cheguei. Linda, ex-loira e alegre. Conheci uma ucraniana loiríssima na fila que estava no Paquistão porque o marido era de lá. Viu, sempre encontro alguma guria com ainda menos parafusos do que eu, oras!

Imigração.

Váááárias filas. Passaportes diplomáticos, passaportes comuns, passaportes paquistaneses. Lógico que ninguém obedecia nenhuma especificação e me enfiei numa fila qualquer com a loira. Já estava me preparando para o pior quando a oficial da imigração carimbou meu passaporte. Passei para outros oficiais que perguntaram o objetivo da minha viagem, se era muçulmana e como estava o tempo no Brasil, se eu gostava de futebol, se conhecia cricket e ainda recebi elogios referentes à minha aparência física.

Uhu!

E o próximo vôo em… 10 horas!

Fui buscar meu bilhete para Peshawar na PIA. Ali fofo havia feito minha reserva para o vôo das 9 horas. Nunca repeti tanto “Delta Tango 2 Romeu Zulu India” na vida (o código da reserva). Ali bobo deixou minha reserva cair e só consegui um bilhete para 13h! Aaargh! Dez horas de espera!

Bem, o mesmo Ali disse que o aeroporto de Karachi me entreteria porque é um shopping center. Ahem. Deve ser para quem embarca em vôos internacionais, não para quem desembarca e fica do lado de fora. É horrível. Nem a rodoviária de Lajeado (RS) é tão trash!

O aeroporto, as pessoas, o banheiro

Estereótipos? Todos. Cheguei aqui super politicamente correta pensando “dane-se CNN” e quando saí do avião… Homens barbudos, a maioria (98%). Mulheres de véu. Cobertas até o nariz. Até burkas! Mamma mia! Confesso que nessa hora toda a minha coragem desapareceu.

Sharwal kameez (camisão largo até o joelho + calça muito larga) é o modelito básico de homens e mulheres. Juro, eu sou a única com jeans e camisa (e olha que minha camisa é longa e larga). Porque até a ucraniana estava numa kameez de seda azul, maravilhosa! Ok, sou o corpo estranho aqui. Sou alta, branca, bem vestida, peituda e minha mala é vermelha. Argh, todo mundo passa e me encara. Que vontade de matar o Ali que disse que eu ficaria bem de jeans e camisa!

Loooook at me…

Aliás, encarar é o máximo que um paquistanês fará. Alguns homens até puxam papo, outras mulheres de burca passam e me xingam. “Vai tomar no frisco, baranga”, respondo em português com a minha paciência no pé. Ou “me non spik ingrish, solo italian”, pros mocinhos que chegam cheio de garbo e fascinação. Como diria meu amigo Creiço: Avôa!

Sharwal Kamiz. O que eu deveria estar usando! Foto de Adeela.

Bateu quatro horas da manhã. Apenas mais nove horas de espera. Nem poderia ligar pro Ali, porque, oras bolas, seria falta de educação. Quem mandou deixar minha reserva cair? Humpf. Que mau humor.

Diário de uma espera

Aaah. Quanto mais olho para o relógio, mais devagar este ponteiro anda. Juro que já vi o ponteiro parar e andar para trás. Não é possível.

4h30

Xixi. Quero muito fazer xixi mas estou cheia de malas e pacotes. E tô sentindo daqui como o toilette feminino é xexelento. Vejo a mulherada entrar e sair com as barras do sharwal kameez molhadas. Nheeeca. Sem falar que deve ser “indian toilet” (aquele buracão de porcelana no chão).

5h00

Tentei trocar dinheiro. Querem comprar um dólar por 55 rúpias. Um roubo! O preço do dólar equivale a 60 rúpias. Não vou trocar dinheiro. Vou até um Citibank tirar dinheiro via Cirrus. Aliás, explorar turista é muito comum por aqui.

5h30

Comprar um cartão telefone aqui e utilizar o telefone público é impossível. Não se pode comprar um simples cartão, it até o telefone e discar a vontade de acordo com seu crédito. Não. Esqueça.

No Paquistão, há sempre um gato pingado vendendo cartões telefônicos ao lado do telefone público. Você tem que pagar para o dito cujo discar o número desejado e ele cobra o preço que quiser. Ok. Já vi que vão levar minhas calças quando tiver que ligar em Peshawar para informar meu horário de chegada por lá.

5h45

Como não quis discar para Peshawar na hora, não posso passar em frente aos telefones que o povo quase pula em cima de mim. Que ódio. E ficam bravos porque eu não quero ligar.

Hello-o! Se eu ligar às 5h45 para Peshawar e acordar a família anfitriã, serei uma alma condenada eternamente. Fato.

5h50

Que frio. Meu Deus. Que frio é esse? Me enfio no casacão de neve e sinto calor. Não há meio termo: é bater queixo ou suar. Prefiro o frio. Agüento.

5h55

O sol está nascendo. É lindo. Parece cena daqueles quadrinhos cafonas: a mesquita, a estrela na alvorada, o céu lilás. O Azan (o canto que chama os muçulmanos para a oração), pessoas se organizando para rezar. Todo o sacrifício valeu a pena. É lindo.

6h05

Lendo o bilhete da PIA, percebo que meu nome foi impresso de forma errada. Ao invés de primeiro nome / sobrenome, colocaram primeiro e segundo nomes. Bem, trabalhando com companhias aéreas, sabia que um erro assim poderia ser muita dor de cabeça. Fui até o guichê.

6h15

Levei quase dez minutos para explicar o que tinha ocorrido. Eles diziam “não se preocupe, não se preocupe”. Mas depois de perder o vôo e outros dramas, eu me preocupo sim. Enfim, um outro funcionário apareceu no guichê e me mandou entrar no escritório.

J.J. Baloch. Muito simpático. Puxou papo e explicou que, por ser um vôo doméstico, não precisaria me preocupar. Repliquei dizendo que trabalho com companhias aéreas e começamos a conversar. Sentamos na salinha do escritório e conversamos um bocado. Ele conhecia o Brasil e me perguntou se queria chá.

Pedi um pouco de água. Ele disse que eu poderia me servir a vontade no bebedouro (desses de galão que todo escritório tem). Detalhe: o copinho era comunitário. Eca. Dei uma de João-sem-braço e pedi um copinho “olha só, acabaram os copinhos descartáveis, que cousa!”. Gente, ele me trouxe um copinho lindo da Pakistan Airlines, quase guardei de souvenir. Parecia limpo. Parecia novo. Espero que estivesse certa.

ÁGUA. Hmmmm.

6h45

Depois de prosearmos um bocado, ele precisava voltar ao trabalho. Até ofereceu o celular para que eu ligasse para o telefone móvel do Ali, já que era tão cedo. Liguei e o tchongo havia desligado o aparelho. Ok. Ligaria mais tarde. Sem problemas.

Ele também me aconselhou a ir até a sala de embarque e esperar lá dentro. Seria muito mais seguro. Perfeito. A hospitalidade paquistanesa começou a me alegrar.

6h50

Saí do escritório e segui até a sala de embarque. Mas o guardinha me barrou, conferiu meu bilhete e disse que eu poderia entrar lá apenas às 9 horas. Que raiva.

De volta às cadeirinhas do segundo andar. O aeroporto é aberto. Lá em cima é mais seguro, acho. Fiquei ao lado de um outro policial. Na porta do escritório da Emirates. Buá, buá.

7h00

O faxineiro do aeroporto tem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), só pode ser. Ele passa o esfregão no andar inteiro. E, quando termina, começa de novo. Já levei umas cinco esbarradas de esfregão por estar, sem querer, no caminho dele. Ele grunhe, faz cara feia e continua.

Neurótico!

7h10

Wawawawawa! Que tédio.

7h13

A televisão do aeroporto mescla Tom e Jerry, comerciais de Cias. Aéreas (muito toscos, aliás), video-cassetadas de bichos e programas religiosos. Em um deles, há um Sheikh cantor. Sei que cantar o Alcorão é prática nas mesquitas. Mas este é pop. Ele pula, ele agita, ele vibra. Adoro!

7h15

Não agüento mais ouvir xingamentos de mulheres cobertas de panos até os olhos. Muitas usam até luvas. Que sufoco! “Vai tomar caju, minha senhora” virou meu bordão. Em português, lógico.

7h20

Estou me coçando para ligar em Peshawar e avisar que chego às 14h30. Mas é muito cedo. Porque diabos ele desligou o celular sabendo que estou chegando? Ah, que aborrecimento, se ligar cedo e acordar a mãe dele não será bom. Estricnina no Fatouche (prato árabe) não é legal.

7h30

Estou namorando o McDonalds do outro lado da rua. Mas tenho malas e não tenho dinheiro paquistanês. Fome, xixi, sede. Preciso pensar em alguma coisa, abstrair…

7h35

Nada como cultivar minhoca na cabeça para passar o tempo. Dizem que Peshawar é uma das piores cidades do Paquistão, perdendo só para Quetta e os vilarejos. Não consigo imaginar nada pior do que este aeroporto.

7h40

Mosquitos. Tudo o que não faltava. Saudades da raquetinha elétrica que o Lucas comprou no 1,99 do Guarujá para torrar mosquitos. Ainda bem que estou vacinada. Mas não contra Malária. Ai meu Deusu.

7h50

Estou com saudades do meu banheiro no Brasil. Ele é lindo, tem uma privada de porcelana branca, uma pia com água tratada e uma ducha forte. Tenho saudades da minha manicure, da minha pedicure, do meu secador de cabelo, da minha cabeleireira.

Nostalgia não é legal nessas horas.

7h55

Falando em pedicure, a mulherada aqui usa a unha do pé compriiiida. Lixam e deixam pontiagudas, pintadas de esmaltes cintilantes. Náuseas. Catherine Deneuve jamais faria isso!

8h00

Apenas uma hora para a sala de embarque. Weehee!

8h05

O faxineiro com TOC já me cutucou de novo.

8h07

Virei a atração do povo. Os populares olham, encaram. As mulheres riem, apontam. Alguns homens tentam puxar papo. “Me non speak ingrish and non parla françois”, mas não adianta muito. Eles continuam em inglês, respondo em português com cara de ventilador. “You vevy pretty” alguns dizem. Lógico. Minha mãe sempre disse isso e não poderia estar errada.

8h10

Ok. Acho que a tia já acordou. Vou ligar para Peshawar!

8h15

Que raiva. Liguei para Peshawar, falei com a mãe do Ali (mega fofa). Avisei que chegaria entre 14 e 14h30. Ela confirmou que o filhote estaria lá para me buscar. Conversamos uns 2 minutos sobre a viagem, garanti que estava tudo tranqüilo e feliz por estar no Paquistão. Linda, diplomática, simpática.

Mas 5 minutos para Peshawar custaram 8 euros. Quase tive um ataque cardíaco quando ele calculou (e me extorquiu). Avoa, um bilhete de 10 minutos para o Brasil custa 100 rúpias (menos de dois dólares) e cinco minutos para Peshawar custaram 8 euros?

“Vocês me roubaram, não tem vergonha de explorar estrangeiros ao invés de serem hospitaleiros e prestativos? Ou a religião do país de vocês é um mero enfeite?”, disse furiosa. Touché. Ele baixou a cabeça. Mas, mesmo assim, tive que pagar 5 euros. Ladrãozinho.

8h20 

Que diabos estou fazendo aqui? Venho para cá porque gosto do país e muitos populares apontam e fazem chacota. Não sou a única que sofro. Basta aparecer um branquinho com cara de estrangeiro (só vi um até agora) e o circo está armado. Tratam-nos como se fossem superiores. Isso realmente me enerva.

Sou jornalista por formação e sempre procurei para desmistificar estereótipos em relação ao Islam e aos países árabes. Começo a me sentir inocente, burra, revoltada. Como dizer ao mundo que há um exagero de informações negativas sobre o Paquistão se o próprio povo se encarrega de reafirmá-los?

Afe. Ainda bem que tingi minhas madeixas louras antes de pisar em solo paquistanês.

8h30 

Sento em outro local. Estou entre alguns senhores barbudos que parecem religiosos. Eles carregam um mundo de coisas enroladas em um pano. Nem todo mundo, aqui, tem malas. Eles enrolam tudo o que tem em lençóis. Está escancarado que o país é muito pobre. Mas fico mais tranqüila entre os senhores. Eles me ignoram. É melhor permanecer invisível do que alvo de risinhos de mulheres recalcadas.

8h35

Minha paz já foi abalada. Um grupinho de paquistaneses bad boys sentou-se na fileira da frente. Ai, que preguiça. Um veste camisa xadrez ao melhor estilo “mamãe, ganhei o primeiro lugar no concurso de Olimpíadas de Matemática”. E ainda tem uma caneta Bic no bolso. Parca verde, boné de couro e óculos falsiê Rayban estilo policial americano.

O outro não está muito diferente e ainda usa sandalinha decorada. Uó. Ainda me encara com cara de sexy. Morri, por favor me enterrem.

8h55

Levanto, empurro o carrinho com a bagagem e vou para a sala de embarque. Mas o guarda faz cara feia e me manda voltar em cinco minutos pois ainda não são 9h. Aaaah.  

9h56

Chilique histérico. Choro.

9h00

Pontualmente, vou para a sala de embarque. O balcão de check-in está fechado, ainda. Abrirá às 11. Mas o local é tranqüilo, limpo e há sofás confortáveis. Obrigada, Deus.

 

9h05 

Sentada no sofá, assisto CNN e BBC, termino meu livro “Kite Runner” (O Caçador de Pipas) e abro a Pepsi que comprei em Istambul. Aaah! Nada como encher ainda mais a bexiga com refrigerante quente. Xixi, só depois do check-in. Não sou louca de deixar minha mala sozinha por aqui.

11h00

Os balcões de check-in estão abertos. Já terminei meu livro, já estou atualizada com as notícias do mundo, já cochilei um pouco e agora vou fazer meu lindo check-in para Peshawar. Não consigo acreditar, estou tão feliz!

11h15

As filas estão desorganizadas. Juro, se houver duas mulheres além de Karina neste vôo, são muitas. Quase todos são homens barbudos de roupas longas e brancas. Muito excesso de bagagem. Tem um que colocou etiqueta de bordo até no radinho de pilha. Achei graça, na hora. Mas é normal. É preciso colocar etiqueta em TUDO.

11h20

Um oficial me tira da fila. Coloca-me numa fila de mulheres. Gente, estou chocada. Só não acho um absurdo porque a fila é minúscula e faço meu check-in rapidamente. Leve, vou para a sala de espera.

11h30

Ok. Não chegaria tão rápido. A revista é ortodoxa. Passo minhas coisas no raio X, o oficial carimba todas as etiquetas em cada peça de bagagem: sacolas do duty-free de Milão, minha mochila, bolsa, zíper do casaco.

O segundo passo é uma revista de corpo feita por uma policial. Em um cubículo fechado por cortininhas. Nada de anormal, os policiais até foram simpáticos.

11h45

Hora do xixi. Há vaso sanitário ocidental. Papel higiênico. E está tudo limpinho. Xixiiiiii!

Aproveito para tomar banho de gato com lencinhos umedecidos Evian. Depois, escovei os dentes e ainda engoli um montão de água (não, não deu piriri… Mas pelamordedeus, não façam isso). Tirei toda a maquiagem, lavei bem o rosto, passei maquiagem, troquei o tênis por minhas botinhas fashion que comprei na Via Nazionale, em Roma. Penteei o cabelo, retoquei o que tinha a retocar e estava pronta para chegar não tão amassada em Peshawar.

As aeromoças que estavam no banheiro me olharam com desdém. Affanc*lo, bando de recalcadas.

12h00

Uma jovem paquistanesa muito linda sentou-se ao meu lado. Sorri. Ela sorriu de volta. Enfim, finalmente uma mulher sem hostilidade. Lógico, ela era linda e bem resolvida! Perguntou para onde eu iria.

 – Peshawar.

– Peshawar? Nossa… – ela disse, surpresa – Você vai a trabalho ou tem parentes por lá?

– Vou visitar uma família de amigos.

– Ah… É uma cidade conservadora, acho que você vai gostar mais de Karachi. Vai sentir saudades daqui…

– Acabei de chegar, não conheci Karachi, ainda. Sou do Brasil.

– Brasil? Nossa, que maravilhoso. Estudo em Karachi, moro em Peshawar. Acho que você vai levar um susto, mas vai ficar bem.

Enfim, Aysha e eu continuamos a conversar um tempão até embarcarmos. Sentamos em lugares diferentes. Outro rapaz de uns 19 anos puxou papo, também. Comecei a me sentir mais a vontade. E, agora, a espera havia terminado. Estava no avião. Muito próxima ao meu destino final.

Vôo doméstico da Pakistan International Airlines

O vôo foi tranqüilo. O comissário era o próprio Apu Nahasapeemapetilon (vide o dono da lojinha de conveniência dos Simpsons). Meu lugar era na saída de emergência, woohoo. Obrigada, paquistanesa do check-in. Minhas pernas longas agradecem. O avião decolou com direito a reza de Alcorão no auto-falante e sinal da cruz pela católica aqui. A comidinha de bordo era gostosinha, mas muito apimentada. Acabei bebendo muita água.

Uniforme dos comissários de bordo da Pakistan International Airlines. Foto de Shahaz Hashmi, retirada do site Global PIA.

Cochilei por alguns minutos e acordei quando o avião sobrevoava a North West Province of Pakistan. Um pedaço árido e montanhoso. Ao aproximar-se de Peshawar, a primeira imagem que tive foram das casinhas nas montanhas no Afeganistão e no Nepal. Nuca estive tão longe de casa. Nunca vi nada assim na vida. Nunca estive tão fascinada.

Foto antiga do Aeroporto Internacional de Peshawar. A pista não mudou muito… Foto retirada da internet.

Pousamos. Não sei descrever o local. Imagine uma Kabul que não foi destruída pelos Talibans. Acho que foi meu primeiro pensamento. O avião parou no meio da pista e caminhamos até o aeroporto, um prédio minúsculo. Peguei minha mala na esteira, coloquei no carrinho e saí. O coração na boca e as pernas trêmulas.

O prédio do aeroporto é assim… Foto de S. Mehboob & Company.

Quando saí do portão do desembarque vi ovelhas, muitas pessoas vestidas das formas mais conservadoras, vendedores de algodão doce, gente pulando sobre mim para oferecer táxi, hotel, cartão telefônico. Não vi o Ali. Meus olhos se encheram de lágrimas. Senti uma mão tocar meu antebraço e uma voz familiar.

Então, meus pés soltaram-se do chão.

Permaneci entorpecida por alguns minutos. Não acreditava. Estava lá. No meio daquele pardieiro, estava feliz e com um sorriso indecente estampado no rosto. Só entende quem é viajante por paixão. Recuperei meu pensamento prático dentro do Toyota Corolla branco, quando o Nasir (o empregado da família) colocou minha mala no porta-malas e comentou em urdu para o Ali:

– Ela deve achar que somos todos uns burros.

Guaio. Foto da BBC.

Achei o comentário engraçado. Tão logo saímos do estacionamento do aeroporto, fui bombardeada com milhares de informações: trânsito caótico, riquixás (rickshaws), animais na pista, refugiados afegãos habitando favelas paupérrimas na beira das avenidas, ônibus coloridos, mulheres de véu, mulheres de burka, camelôs, poluição, barulho, outdoors de filmes indianos, muitas cores, propagandas toscas, bicicletas, mobiletes, motinhos. Enfim, tudo o que se locomove por terra e não é tanque de guerra desfila pela Jamrud Road.

Refugiados afegãos vivem nas principais rodovias. Foto de Duane Ruth-Heffelbower.

A Universidade. Os minaretes de mesquita. O céu amarelo. Smog (a névoa de poluição). Corvos fazendo craw-craw. O canto da mesquita. Buzinas. Tiros ao alto disparados por tribais. Peshawar, a cidade próxima à fronteira que liga Kabul ao resto do Paquistão, se revelou em menos de poucos minutos aos meus olhos ocidentais que conheceram a Turquia como o máximo do oriente muçulmano.

Seria muito estranho dizer que me apaixonei por este caos?

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~ por libanesa em junho 17, 2007.

19 Respostas to “Paquistão, a primeira vez… Vôo perdido!”

  1. Karinissima,

    Muito legal seu Blog! Você vou na PIA! Me fez lembrar que já voei na Royal Nepal Airlines…

    Se você já hablitou o RSS, coloque um link no seu Blog para que possamos acompanhar os posts mais facilmente

    Um abraço e parabéns.

  2. Bom dia e com licença! Sim, licença para entrar pela primeira vez e, é claro, deixar meus parabéns pelo completo guia e as ótimas sugestões e dicas que ficam nas entrelinhas de sua matéria.

    Gostei muito e ficarei “cliente”! Sucesso!

  3. Adorei seu blog!

  4. hahahahahahahahaha, me diverti muitíssimo!

    adorei o teu jeito de escrever…

    ah, e achei curioso que largaste um “guria” no meio do texto, e lageado tbm. tens raízes aqui no sul?

    bueno, adorei, só pra te dizer isso.

    bjão, diogo

  5. Karina, que post bacana é esse???
    Como disse o Diogo, eu também me diverti muito.
    Pode continuar, que a gente gosssta :-D

  6. Adorei!!!!!!!!!!!

  7. “mamãe, ganhei o primeiro lugar no concurso de Olimpíadas de Matemática”.
    Karina, cheguei aqui através do Ricardo Freire, gostei muito, mas não entendi o que você quis dizer na frase acima. Meu filho ganhou medalha de ouro na OBMEP 2006, 1º lugar do Distrito Federal, orgulho imenso. Junto com a medalha, vai fazer um ano de curso de matemática com professores universitários e aprender um pouco mais. A OBMEP é Olímpiadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas, é realizada no Brasil todo, uma iniciativa inovadora e estimulante para os jovens, principalmente por abranger as escolas públicas, tão sucateadas. É um projeto sério de valorização do conhecimento, um suceso, no site http://www.obmep.org.br/ tem mais informações, se lhe interessar. Tudo de bom.

  8. Kariníssima, me diverti horrores com os seu texto, engraçadíssimo!!!! Como disse o Rodrigo, habilite o RSS da wordpress pra gente acompanhar sempre suas histórias! Parabéns!

  9. Delicia !
    Cheguei a me emocionar com tuas historias , já me senti assim muitas vezes e
    as tuas primeiras
    impressões de Peshawar foram as mesmas que senti ao chegar em Katmandu ( mas depois , na India continuei sentindo a mesma coisa ( o tempo todo))

  10. Karinissima, eu é que tenho que me desculpar, estava em um dia mãe Leoa, lambendo a cria, tipo “ninguém pode chegar perto”. O espírito dessa tripulação é outro, todos super gente boa, super de bem com a vida, e isso me faz viajar nos blogs todos os dias. O Beto, sem querer querendo, como diz o Chaves, me deu um belo puxão de orelha, e eu fiquei agradecida, eu estava não meio, mas inteiramente equivocada. O tom aqui, e o que deveria ser também em nossas vidas, é de amizade, companheirismo, troca de experiências, harmonia… Queira me desculpar, foi um momento bobeira (deve ter sido efeito pós-velório da minha querida sogra, no Rio de Janeiro) Não justifica, mas explica. Não me senti ofendida, não. Pronto, podemos ficar de bem? Beijos e muitas alegrias. Ainda sem conhecer, posso dizer que gosto muito de todos vocês…

  11. Oi quêri!!!

    Olha só, o Diego tem uma opinião formada sobre o Polska…

    Ele visitou lá semana passada casualmente, e assim que ler teu comment vai te dizer o que achou, ok?

    Bjão, Diogo

  12. É fato, tá respondido lá no blog.
    Ah, e parabéns pelo blog, tá show.
    Beijos

  13. Adorei isto aqui! Quero mais!

    Parabéns e viaje cada vez mais, por favor!

    Um beijo!

  14. Per-fei-to!!!

    Amei o seu relato de viagem… deu vontade de embarcar numa loucura dessa e tbm me apaixonar pelo caos. Só me falta um amigo atrapalhado como o Ali pra me dar algum apoio. Vc escreve de uma maneira agradabilíssima! Muito divertido seu texto!!

    Beijo!!

  15. Olá Karinissima…navegando pela net encontrei seu texto. Ri muito, fiquei agoniada também. Gostaria de um conselho teu, estou querendo ir no final do ano para Turquia, Izmir. Se puder indicar empresa aérea, hotéis, agradeço muitissimo. Quero realizar esse grande sonho ainda este ano.
    Grande abraço,
    Synnara

  16. Olá,

    Gostaria que entrasse em contato, via e-mail , por gentileza. Tenho algumas idéias para o meu, o seu e mais alguns blogues sobre turismo e viagens.

    Abraços,

    Blog Meio Aéreo – Comissários de bordo

  17. Fantastico, muito lindo, um dia estarei ai para visitar.

  18. Eu aqui, fim de mais um dia de trabalho e…. parado em frente a tela do meu pc interessadíssimo em um blog que encontrei ! Foi um achado este seu blog ! Divertido e interessante como poucos !

  19. Nice response in return of this query with solid arguments and describing everything regarding that.

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